Existem perguntas que surgem quando alguém enfrenta uma situação que parece não ter solução. Uma pessoa recebe um diagnóstico difícil, uma família passa por uma crise financeira, alguém espera há anos por uma resposta ou uma circunstância chega a um ponto em que todas as alternativas humanas parecem esgotadas.
É nesse momento que muitas pessoas perguntam: Deus ainda faz milagres hoje? Para alguns, a pergunta nasce da esperança de que algo extraordinário aconteça. Para outros, nasce da frustração de já terem orado muito e não terem visto a resposta esperada. Também existem aqueles que cresceram ouvindo testemunhos de curas, livramentos e provisões sobrenaturais, mas que nunca experimentaram algo semelhante. Afinal, os milagres pertencem apenas ao passado bíblico ou Deus continua agindo de maneira sobrenatural na atualidade?
A Bíblia apresenta Deus como o Senhor que possui poder sobre a criação, sobre a enfermidade, sobre a natureza, sobre a morte e sobre circunstâncias que ultrapassam a capacidade humana. Desde o Antigo Testamento até os Evangelhos e o livro de Atos, encontramos relatos de acontecimentos extraordinários que apontam para a ação divina. Ao mesmo tempo, a própria Bíblia não ensina que todo problema será resolvido por meio de um milagre, nem que toda pessoa que demonstra fé receberá exatamente aquilo que deseja.
Por isso, responder a essa pergunta exige equilíbrio. Precisamos evitar tanto o ceticismo que limita Deus àquilo que conseguimos explicar quanto a ingenuidade que transforma qualquer promessa religiosa em garantia de uma intervenção sobrenatural.
A questão não é apenas saber se Deus pode fazer milagres. A pergunta também envolve compreender o que é um milagre, por que Deus realiza sinais extraordinários, como discernir testemunhos e como continuar confiando quando o milagre que esperamos não acontece.
O que a Bíblia chama de milagre?
Antes de discutir se Deus ainda faz milagres, precisamos compreender o significado do termo. De maneira geral, um milagre pode ser entendido como uma intervenção extraordinária de Deus em uma situação, produzindo um acontecimento que ultrapassa as explicações e capacidades humanas comuns. Na narrativa bíblica, os milagres não aparecem apenas como demonstrações de poder. Eles frequentemente estão relacionados à revelação do caráter de Deus, à confirmação de uma mensagem, à libertação de pessoas e ao avanço de seus propósitos.
No Antigo Testamento, a libertação do povo de Israel do Egito é acompanhada por sinais extraordinários, incluindo as pragas, a abertura do mar e a provisão no deserto. Esses acontecimentos não foram apresentados simplesmente como espetáculos. Eles faziam parte da revelação de Deus como aquele que ouve o clamor do seu povo e age na história. Da mesma maneira, os milagres realizados por Jesus não eram apenas acontecimentos impressionantes destinados a despertar curiosidade. Eles revelavam aspectos de sua identidade e do Reino de Deus.
O termo “milagre” também pode ser utilizado pelas pessoas em sentidos diferentes. Algumas usam a palavra para falar de uma cura que consideram inexplicável. Outras a utilizam para descrever uma provisão inesperada, uma mudança de circunstância ou uma resposta de oração. É importante respeitar a maneira como cada pessoa descreve sua experiência, mas também manter discernimento. Nem todo acontecimento improvável é necessariamente um milagre no sentido bíblico, e nem toda experiência que não conseguimos explicar deve ser imediatamente atribuída a uma intervenção sobrenatural.
A fé não precisa ter medo da investigação. Reconhecer a ação de Deus não exige abandonar a responsabilidade de avaliar os fatos com honestidade.
Os milagres ocupam um lugar importante na vida de Jesus
Os Evangelhos apresentam Jesus realizando diversos sinais extraordinários. Ele cura enfermos, liberta pessoas oprimidas, acalma uma tempestade, multiplica alimentos e ressuscita mortos. Esses relatos são fundamentais para a fé cristã porque apontam para a autoridade e a identidade de Jesus.
No Evangelho de João, os milagres são frequentemente chamados de “sinais”. Essa palavra é significativa porque indica que o acontecimento aponta para algo além de si mesmo. Uma cura não era apenas a recuperação física de alguém; também podia revelar a compaixão de Cristo e sua autoridade. A multiplicação dos pães não era apenas uma solução para a fome de uma multidão; também estava relacionada às declarações de Jesus sobre ser o pão da vida. A ressurreição de Lázaro não era apenas uma demonstração de poder sobre a morte; apontava para a identidade de Jesus como a ressurreição e a vida.
Isso nos ajuda a compreender que o milagre, na perspectiva bíblica, não deve ser separado da mensagem que ele comunica. Quando o foco fica apenas no extraordinário, existe o risco de procurar Deus somente naquilo que impressiona. Entretanto, Jesus não chamou as pessoas para serem consumidoras de sinais. Ele as chamou para segui-lo, ouvi-lo e viverem em relação com Ele.
Os milagres apontam para Deus, mas não devem ocupar o lugar de Deus.
Deus tem poder para realizar milagres atualmente?
Dentro da fé cristã, a resposta é afirmativa: Deus não perdeu seu poder. O Deus apresentado nas Escrituras não é uma divindade limitada a uma época histórica. Sua capacidade de agir não terminou com o encerramento dos relatos bíblicos. A Bíblia afirma que Deus é soberano e que sua natureza não muda. Por isso, cristãos que acreditam na continuidade da ação sobrenatural de Deus entendem que Ele ainda pode curar, libertar, proteger, prover e intervir em circunstâncias de maneira extraordinária.
Entretanto, afirmar que Deus pode realizar milagres não significa declarar que sabemos quando Ele realizará determinado milagre. Essa diferença precisa ser preservada. A capacidade de Deus é uma coisa; a nossa interpretação sobre o que Ele fará em uma situação específica é outra. Podemos orar com fé, pedir cura, buscar ajuda e esperar uma intervenção, mas não temos autoridade para transformar nosso desejo em uma promessa divina que a Bíblia não apresentou individualmente.
É possível dizer “Deus pode curar” sem afirmar “Deus certamente curará esta pessoa nesta data”. É possível acreditar que Deus pode abrir uma porta sem declarar que determinada oportunidade foi garantida por Ele. É possível confiar no poder divino sem tratar uma expectativa pessoal como uma revelação.
A fé reconhece o poder de Deus sem presumir que controla a maneira como Deus age.
Por que nem todo pedido termina em milagre?
Essa é uma das questões mais dolorosas quando falamos sobre o sobrenatural. Se Deus pode realizar milagres, por que algumas pessoas são curadas e outras não? Por que algumas famílias recebem uma provisão inesperada enquanto outras continuam enfrentando dificuldades? Por que alguém ora pela restauração de um relacionamento e a separação acontece mesmo assim? Por que uma pessoa pede livramento e ainda enfrenta perdas?
A Bíblia não oferece uma explicação individual para todas essas situações. Ela apresenta relatos de intervenções extraordinárias, mas também mostra pessoas fiéis enfrentando sofrimento, perseguição, enfermidade e morte. Paulo orou sobre seu “espinho na carne” e não recebeu a resposta que desejava. Timóteo enfrentava problemas de saúde, e Paulo fez uma recomendação prática relacionada à sua condição. Trófimo foi deixado doente em Mileto, segundo o relato de 2 Timóteo 4:20. Esses textos não diminuem o poder de Deus, mas mostram que a experiência cristã não pode ser reduzida à ideia de que todo sofrimento será removido por meio de uma intervenção imediata.
A ausência de um milagre específico não prova automaticamente falta de fé. Também não significa que a pessoa não orou corretamente, que não entregou suficientemente sua vida a Deus ou que existe necessariamente algum pecado escondido impedindo a resposta. Esse tipo de conclusão pode gerar culpa em pessoas que já estão sofrendo.
A fé cristã precisa deixar espaço para o mistério. Deus pode agir de maneira extraordinária, mas não somos capazes de explicar todas as razões pelas quais uma intervenção acontece em um caso e não acontece em outro.
A fé não é uma fórmula para obrigar Deus a agir
Em alguns ambientes religiosos, o milagre é apresentado como se fosse o resultado automático de uma técnica espiritual. A pessoa precisa declarar determinadas palavras, repetir uma fórmula, alcançar certo nível de fé ou cumprir uma sequência específica de atitudes para garantir a intervenção divina. Essa abordagem pode parecer motivadora, mas cria um problema sério: transforma a relação com Deus em uma espécie de mecanismo de troca.
A Bíblia apresenta a fé como confiança em Deus, não como uma ferramenta para controlar Deus. Orar com fé não significa acreditar que podemos determinar todos os resultados. Significa confiar no caráter e no poder de Deus, apresentando a Ele nossas necessidades e desejos. A oração não é uma forma de manipulação espiritual; é uma expressão de dependência, relacionamento e busca.
Quando tratamos a fé como uma fórmula, qualquer resultado diferente do esperado pode ser interpretado como fracasso pessoal. Se a cura não acontece, alguém pode pensar que não teve fé suficiente. Se a oportunidade não aparece, pode concluir que declarou algo errado. Se a crise continua, pode imaginar que Deus está decepcionado com ela.
Esse peso não corresponde à maneira saudável de compreender a fé bíblica. Existem exemplos nas Escrituras de pessoas que confiaram em Deus e, ainda assim, atravessaram situações difíceis. A confiança cristã não depende de acreditar que temos controle sobre o comportamento de Deus.
Fé não é uma maneira de obrigar Deus a fazer o que queremos; é uma maneira de permanecer diante de Deus mesmo quando não controlamos o resultado.
O perigo de prometer milagres em nome de Deus
A esperança é importante, mas a esperança precisa ser acompanhada de responsabilidade. Uma das situações mais delicadas no ambiente cristão ocorre quando alguém afirma categoricamente que Deus realizará determinado milagre. Frases como “Deus me revelou que você será curado amanhã”, “sua dívida será paga até o fim da semana” ou “essa pessoa certamente voltará para sua vida” podem criar expectativas profundas em quem está vulnerável.
Se aquilo não acontece, a pessoa pode experimentar uma crise de fé, culpa, vergonha ou desconfiança. Ela pode concluir que Deus mentiu, que sua fé falhou ou que não é digna de receber uma resposta. Em alguns casos, pessoas continuam esperando indefinidamente por uma promessa que nunca foi realmente estabelecida por Deus, mas que foi apresentada por alguém com excesso de certeza.
A Bíblia orienta os cristãos a exercerem discernimento em relação às profecias e às mensagens espirituais. Isso significa que nem toda declaração feita em nome de Deus deve ser recebida sem avaliação. A autoridade espiritual de alguém não elimina a necessidade de prudência.
É possível encorajar uma pessoa sem garantir um resultado que não conhecemos. Podemos dizer: “Continue buscando a Deus”, “vamos orar por essa situação”, “creio que Deus pode agir” e “você não precisa atravessar isso sozinho”. Essas palavras oferecem apoio sem criar uma promessa artificial.
O verdadeiro cuidado espiritual não utiliza a vulnerabilidade de alguém para produzir dependência, medo ou obediência cega.
Milagres e medicina podem caminhar juntos
Outro equívoco comum é acreditar que confiar em milagres exige rejeitar tratamentos médicos, acompanhamento profissional ou recursos científicos. Essa oposição não é necessária. A Bíblia não apresenta o cuidado com a saúde e a confiança em Deus como realidades obrigatoriamente incompatíveis.
Deus pode agir de maneiras extraordinárias, mas também pode utilizar médicos, medicamentos, tratamentos, profissionais, pesquisas e recursos disponíveis. Procurar ajuda médica não significa necessariamente falta de fé. Da mesma forma, reconhecer a importância de um tratamento não impede alguém de continuar orando.
Quando uma pessoa está doente, é possível buscar a Deus em oração e, ao mesmo tempo, procurar atendimento adequado. Essas atitudes não precisam competir. A responsabilidade de cuidar do corpo e buscar orientação profissional continua sendo importante, especialmente em situações graves ou urgentes.
Também é necessário ter cuidado com testemunhos de cura. Um relato pessoal pode ser significativo para quem o viveu, mas não substitui uma avaliação médica. Uma melhora pode ter diferentes causas, e afirmar uma explicação sobrenatural exige mais cautela do que simplesmente compartilhar uma experiência de fé.
A confiança em Deus não precisa ser demonstrada por decisões que coloquem a própria vida em risco.
Como discernir um testemunho de milagre?
Testemunhos podem fortalecer a fé e lembrar que pessoas atravessam situações difíceis de maneiras surpreendentes. Porém, é importante compreender que um testemunho é o relato de uma experiência, e não necessariamente uma prova de que todas as pessoas terão o mesmo resultado.
Ao ouvir uma história sobre uma cura, uma provisão ou um livramento, podemos considerar algumas perguntas: o que realmente aconteceu? Existem informações verificáveis? A pessoa recebeu acompanhamento adequado? O relato está sendo apresentado com honestidade ou foi exagerado para provocar emoção? Existe pressão para que outras pessoas contribuam financeiramente ou sigam determinado líder? A história está apontando para Deus ou transformando o mensageiro em protagonista?
Essas perguntas não precisam ser feitas com cinismo. Discernimento não é a mesma coisa que incredulidade. Ser prudente não significa negar que milagres possam acontecer. Significa evitar conclusões precipitadas.
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Também precisamos lembrar que um testemunho não deve ser utilizado para humilhar quem ainda espera. Se alguém foi curado, isso não autoriza ninguém a afirmar que todos os enfermos serão curados se tiverem fé suficiente. Se alguém recebeu uma grande provisão, isso não significa que toda pessoa que enfrenta dificuldades financeiras receberá a mesma resposta.
A experiência de uma pessoa pode inspirar esperança, mas não deve ser transformada em uma regra universal.
O maior milagre é sempre uma mudança de vida?
No ambiente cristão, algumas pessoas afirmam que a conversão é o maior milagre. Essa declaração procura destacar a transformação espiritual que acontece quando alguém passa a viver em Cristo. A Bíblia apresenta a salvação, o novo nascimento e a reconciliação com Deus como realidades profundamente significativas. Entretanto, é importante não utilizar essa afirmação para diminuir o sofrimento físico, emocional ou material de quem precisa de ajuda.
Uma pessoa que está enfrentando uma doença não precisa ouvir que sua cura não importa porque o maior milagre seria sua conversão. Alguém que passa fome precisa de alimento, não apenas de uma explicação espiritual. Uma pessoa vítima de violência precisa de proteção, justiça e apoio concreto. A espiritualidade cristã não deve ser usada para ignorar necessidades reais.
Ao mesmo tempo, a fé cristã ensina que a vida humana possui uma dimensão que vai além das circunstâncias imediatas. Uma cura física é importante, mas não elimina a necessidade de transformação interior. Uma provisão financeira pode resolver uma crise, mas não substitui a formação do caráter. Um livramento pode preservar a vida, mas não elimina a necessidade de viver com responsabilidade e amor.
O milagre não deve ser reduzido apenas ao que recebemos. Ele também precisa ser compreendido à luz de quem estamos nos tornando diante de Deus.
E quando o milagre não acontece?
Essa é talvez a parte mais importante deste artigo. Falar sobre milagres quando tudo termina bem é relativamente fácil. O verdadeiro desafio aparece quando a pessoa orou, acreditou, procurou ajuda e, ainda assim, a resposta não veio como esperava.
Nesse momento, algumas respostas religiosas podem ser profundamente prejudiciais. Dizer que a pessoa não teve fé suficiente, que não declarou corretamente ou que não buscou a Deus da maneira certa pode aumentar sua dor. A Bíblia não nos autoriza a explicar automaticamente o sofrimento de alguém com esse tipo de julgamento.
Quando o milagre não acontece, a pessoa pode continuar sendo amada por Deus. Sua dignidade não diminui. Sua história não perde valor. Sua fé não precisa ser medida apenas pelo resultado de uma oração. E ela não precisa fingir que não está decepcionada.
A Bíblia apresenta Jesus chorando diante da morte de Lázaro, mesmo sabendo que realizaria um milagre naquela situação. Isso mostra que a compaixão divina não trata a dor humana como algo irrelevante. O sofrimento importa. As lágrimas importam. A perda importa.
Também precisamos reconhecer que existem situações em que o milagre esperado não acontece e a pessoa precisa de apoio para lidar com as consequências. A comunidade cristã tem um papel importante nesse processo. A igreja não deve aparecer apenas para celebrar testemunhos extraordinários, mas também para acompanhar pessoas em luto, enfermidade, desemprego, crise emocional e períodos de incerteza.
Uma comunidade que só sabe comemorar milagres, mas não sabe permanecer ao lado de quem sofre, ainda precisa compreender profundamente o amor de Cristo.
O milagre não é a única forma de Deus agir
Quando falamos sobre a ação de Deus, existe o risco de enxergar apenas aquilo que é extraordinário. Queremos o acontecimento impressionante, a resposta inesperada e a mudança repentina. Mas a Bíblia também apresenta Deus agindo através de processos, pessoas, decisões, sabedoria e perseverança.
Às vezes, a resposta de Deus pode envolver uma porta que se abre. Em outras situações, pode envolver a força para continuar, a ajuda de alguém, o acesso a um tratamento, a oportunidade de recomeçar ou a sabedoria para tomar uma decisão difícil. Isso não significa que devemos chamar qualquer acontecimento de milagre sem discernimento. Significa apenas que não devemos limitar a ação de Deus ao que produz impacto imediato.
Uma pessoa que recebe apoio durante uma fase de depressão, por exemplo, pode experimentar cuidado por meio de amigos, familiares e profissionais. Uma família que enfrenta dificuldades pode encontrar provisão através de trabalho, solidariedade e oportunidades concretas. Alguém que precisa abandonar um comportamento destrutivo pode receber ajuda por meio de acompanhamento, disciplina e uma rede de apoio.
A ação de Deus não precisa ser espetacular para ser significativa.
O extraordinário chama nossa atenção, mas a fidelidade cotidiana também tem valor.
Como manter a fé enquanto espera um milagre?
Se você está esperando uma intervenção de Deus, é importante não permitir que sua vida inteira fique paralisada em torno daquilo que ainda não aconteceu. Esperar não significa abandonar todas as responsabilidades. Enquanto você ora por uma oportunidade, continue desenvolvendo suas habilidades e procurando caminhos possíveis. Enquanto espera por uma mudança familiar, continue agindo com honestidade e buscando ajuda quando necessário. Enquanto espera por uma resposta relacionada à saúde, siga as orientações profissionais e cuide de si mesmo.
A fé não elimina a responsabilidade de participar das soluções possíveis. Orar por uma oportunidade de trabalho não substitui a preparação para entrevistas. Pedir provisão financeira não significa ignorar a necessidade de organizar gastos. Buscar restauração de um relacionamento não elimina a importância de conversar com maturidade, respeitar limites e reconhecer erros.
Também é importante evitar que a espera se transforme em obsessão. Algumas pessoas passam tanto tempo procurando sinais que deixam de perceber a vida real diante delas. Cada coincidência é interpretada como uma confirmação, cada atraso como uma batalha espiritual e cada dificuldade como uma prova de que o milagre está próximo. Essa mentalidade pode gerar ansiedade e dificultar decisões equilibradas.
Você pode esperar em Deus sem viver escravizado à necessidade de encontrar sinais o tempo inteiro.
A fé de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego
Um dos textos mais profundos sobre confiança em Deus está em Daniel 3. Sadraque, Mesaque e Abede-Nego enfrentaram a ameaça de serem lançados na fornalha porque se recusaram a adorar a imagem levantada pelo rei. Ao responderem à ameaça, eles afirmaram que Deus poderia livrá-los, mas também declararam que, mesmo se isso não acontecesse, não adorariam a imagem.
Essa postura é muito diferente de uma fé baseada em exigências. Eles acreditavam no poder de Deus, mas não condicionaram sua fidelidade à garantia de um livramento específico.
Esse texto não deve ser usado para dizer que devemos aceitar passivamente qualquer injustiça ou deixar de procurar proteção. Sua força está na demonstração de que a lealdade a Deus não dependia do resultado que eles desejavam. Eles criam que Deus podia agir, mas não transformaram essa possibilidade em uma exigência.
Essa é uma fé difícil e profunda. É a fé que consegue dizer: “Deus pode fazer isso, e eu vou pedir que Ele faça. Mas minha confiança não estará fundamentada apenas na resposta que espero receber”.
A fé madura não diminui o poder de Deus quando reconhece que não controla suas decisões.
Deus ainda faz milagres, mas não transforme o milagre em um ídolo
Um ídolo não é apenas uma imagem de pedra ou metal. Em sentido amplo, qualquer coisa que ocupe o lugar central que deveria pertencer a Deus pode se tornar um ídolo. Isso também pode acontecer com o desejo por milagres.
Quando a pessoa começa a buscar apenas o extraordinário, ela pode perder de vista o próprio Deus. Passa a frequentar determinados ambientes somente para receber uma experiência, acompanhar líderes apenas pelos testemunhos ou avaliar uma igreja exclusivamente pela quantidade de milagres relatados. Nesse processo, a fé pode se tornar dependente da emoção e da novidade.
O problema não está em desejar um milagre. É legítimo pedir ajuda a Deus, esperar cura, buscar provisão e clamar por uma intervenção. O problema surge quando o milagre se torna mais importante do que o relacionamento com Deus e a obediência aos seus ensinamentos.
Jesus realizou sinais, mas também chamou as pessoas ao arrependimento, ao amor, à verdade, à justiça e ao discipulado. Ele não veio apenas para impressionar multidões. Veio para reconciliar pessoas com Deus e anunciar o Reino.
Se recebemos um milagre, nossa resposta deve envolver gratidão e responsabilidade. Se ainda esperamos, nossa caminhada não precisa ser interrompida.
O maior fundamento da esperança cristã é a ressurreição
A fé cristã está fundamentada em um acontecimento central: a ressurreição de Jesus Cristo. Os milagres narrados nos Evangelhos são importantes, mas a ressurreição ocupa um lugar único na mensagem apostólica. Ela aponta para a vitória de Cristo sobre a morte e fundamenta a esperança cristã de vida eterna.
Isso significa que a esperança do cristão não depende exclusivamente de receber uma cura nesta vida, de alcançar uma prosperidade financeira ou de escapar de todas as dificuldades. A esperança cristã aponta para a obra completa de Deus, incluindo a redenção da criação e a promessa de que a morte não terá a palavra final.
Essa perspectiva não torna os problemas atuais irrelevantes. Jesus se importou com pessoas enfermas, famintas, excluídas e enlutadas. Os cristãos também devem se importar. Mas a esperança futura impede que o sofrimento presente seja considerado o capítulo definitivo da existência.
Talvez você esteja orando por uma cura e ainda não tenha recebido a resposta. Talvez esteja enfrentando uma situação que parece impossível. A ressurreição não oferece uma explicação simples para cada dor, mas oferece uma esperança que ultrapassa os limites desta vida.
O cristianismo não promete que todos os problemas serão resolvidos imediatamente. Ele anuncia que Deus está conduzindo a história para uma restauração definitiva.
Então, Deus ainda faz milagres hoje?
A Bíblia apresenta Deus como poderoso, soberano e capaz de agir de maneira sobrenatural. Por isso, os cristãos podem continuar orando por milagres e acreditando que Deus ainda pode intervir em situações impossíveis. Não existe necessidade de limitar o poder divino ao passado ou concluir que a ação sobrenatural de Deus terminou com os personagens bíblicos.
Entretanto, essa convicção precisa caminhar ao lado de discernimento, responsabilidade e humildade. Não devemos prometer resultados que Deus não nos prometeu individualmente. Não devemos acusar quem não recebeu a resposta esperada. Não devemos substituir cuidados médicos por afirmações religiosas irresponsáveis. Não devemos transformar testemunhos em fórmulas nem usar a esperança das pessoas para controlá-las.
Podemos crer em milagres sem viver em busca de espetáculo. Podemos orar por cura sem desprezar tratamentos. Podemos esperar uma intervenção sem paralisar nossas responsabilidades. Podemos testemunhar o que vivemos sem impor nossa experiência sobre todas as outras pessoas. E podemos continuar confiando em Deus mesmo quando a resposta chega de uma maneira diferente daquela que imaginávamos.
Talvez você esteja vivendo um momento em que precisa de um milagre. Não tenha vergonha de apresentar sua necessidade a Deus. Ore com sinceridade. Busque ajuda. Procure pessoas confiáveis. Faça aquilo que está ao seu alcance e não permita que falsas promessas aumentem seu sofrimento.
E, se a resposta não vier como você espera, lembre-se de que sua vida não perdeu o valor e que a fidelidade de Deus não pode ser medida apenas por uma circunstância específica.
Deus ainda pode fazer milagres. Mas a nossa fé não precisa depender de controlar quando, como ou por que eles acontecerão.
O milagre é uma expressão do poder de Deus, não uma ferramenta para colocá-lo sob o nosso controle. A fé verdadeira não ignora a realidade, não rejeita a sabedoria e não precisa fabricar certezas. Ela reconhece o poder divino, enfrenta a dor com honestidade e continua buscando a Deus em todas as estações da vida.
Às vezes, a resposta será uma intervenção extraordinária. Em outras ocasiões, será um processo longo, uma porta que se abre gradualmente, uma pessoa que chega para ajudar ou a força necessária para atravessar um dia difícil. E haverá situações que permanecerão sem explicação nesta vida.
Ainda assim, a esperança cristã permanece: Deus não deixou de ser Deus, o sofrimento não terá a palavra final e a história não termina naquilo que nossos olhos conseguem enxergar agora.
Continue crendo no poder de Deus, mas não permita que a busca pelo milagre faça você perder o próprio Deus de vista.



