Essa semana o papo no Worship Backstage foi diferente. Sem roteiro, sem script, só uma reflexão honesta sobre algo que venho observando há anos nos bastidores da adoração e que pouquíssimas pessoas têm coragem de falar em voz alta.
Você pode estar dentro da igreja toda semana, tocando, operando o som, fazendo a projeção, e nunca, absolutamente nunca, estar cultuando a Deus de verdade.
Pesado? É. Mas é real.
Estar fazendo não é o mesmo que estar cultuando
Pensa no técnico de som. Ele chega cedo, prepara o equipamento, passa o culto inteiro de olho nos níveis, ajustando o retorno, adicionando microfone de última hora, resolvendo imprevisto. A atenção dele está 100% no funcionamento do culto.
Agora pensa no músico. Ensaiou a semana toda, tirou a música direitinho, está concentrado em não errar a entrada, não perder o tom, não atrapalhar o andamento.
Os dois estão na igreja. Os dois estão trabalhando para que o culto aconteça. Mas nenhum dos dois está prestando atenção no que está sendo pregado, no que está sendo ministrado, no que Deus está falando para a congregação naquele momento.
Você estava no culto, mas não cultuou. E esse ciclo se repete domingo após domingo, ano após ano.
O desgaste que ninguém nomeia
Com o tempo, esse acúmulo cobra um preço. A pessoa começa a se sentir cansada, frustrada, desanimada. Entra na igreja do mesmo jeito que sai. Algumas vezes sai pior do que entrou, porque estava tão focada nos detalhes técnicos que a palavra não teve espaço para entrar.
E aí vem a decepção. O músico que toca há dez anos e sente que não é reconhecido. O sonoplasta que dedica horas e horas e acha que ninguém valoriza. O voluntário que começa a querer sair do departamento só para poder sentar no cantinho e aproveitar o culto em paz.
O problema não é a falta de dedicação. O problema é que, em algum momento, o fazer se tornou maior do que o cultuar. E ninguém percebeu quando isso aconteceu.
A raiz do problema: poucos músicos para muita demanda
Grande parte desse esgotamento tem uma causa prática muito clara. Na maioria das igrejas, especialmente nas menores, existe uma quantidade insuficiente de pessoas para cobrir todos os departamentos. O único baterista toca em todos os cultos. O único guitarrista nunca descansa. Quando um falta, a igreja toda sente.
Esse modelo é insustentável. E enquanto não existir uma solução para isso, o desgaste vai continuar.
A solução: ser mais discipulador do que discípulo
Jesus escolheu doze, ensinou durante três anos e meio e deixou um legado que transformou o mundo. Ele não fez sozinho, e não fez para sempre. Ele preparou pessoas para continuar.
A mesma lógica precisa entrar nos ministérios de música, som, projeção e iluminação das igrejas.
Existem dois caminhos para isso.
O primeiro é de curto prazo: abrir audições, chamar pessoas de fora que tenham interesse em servir, testar o nível de cada um, ensinar a cultura da igreja e montar uma escala diversificada. Não resolve tudo, mas já alivia a pressão.
O segundo é de médio e longo prazo: criar uma escola de música dentro da própria congregação. Pode começar com um ou dois alunos, pode demorar anos para dar fruto, mas é uma semente que transforma o ministério de dentro para fora. Às vezes aquela criança que fica enchendo o saco pedindo para tocar um instrumento é exatamente onde Deus quer que você invista.
Um exercício prático para começar agora
Independentemente de onde você está nesse processo, existe uma coisa pequena que você pode fazer já no próximo culto: depois que o momento de louvor terminar, tire o fone, tire o ponto de retorno e preste atenção no que está sendo ensinado.
Parece simples, mas faz uma diferença enorme. Porque a transformação não vem de estar presente fisicamente. Ela vem de ouvir a palavra, entender os princípios, deixar o ensinamento entrar de verdade.
Você não precisa esperar ter dois bateristas ou uma equipe completa para começar a cultuar. Começa agora, com o que você tem.
O que te mantém firme não é a técnica
Por último, e talvez o ponto mais importante de todo esse episódio: o que vai te manter servindo por cinco, dez, vinte anos não é a sua habilidade técnica. É o fato de que você está fazendo para Cristo.
Se o seu combustível é o reconhecimento das pessoas, você vai se decepcionar. A igleja nem sempre vai ter condições de te pagar. Nem sempre vai ter alguém para te agradecer. Mas quando você entende que está servindo ao Senhor, o jogo muda completamente.
Não chegue no limite para perceber isso. Comece a plantar sementes agora, cuide da sua espiritualidade fora do palco e abra espaço para que outras pessoas cresçam ao seu lado.


